"Monarquia Hoje?, Diálogos com o Duque de Bragança", de Clara Picão Fernandes

07-08-2010 20:37

INTRODUÇÃO

 

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"L'Aventure c'est l'aventure"

 

 

«Há tempos pensara escrever um livro sobre uma personalidade que me fascinasse profundamente. Mas a escolha era difícil. Seduzia-me Luther King, o Papa João XXIII, Lech Walesa ou um daqueles mártires de quem quase ninguém ouviu falar, cuja vida se encontra nos panegíricos de um ou outro alfarrabista do Bairro Alto. A ideia ficou em gestação, mas a indecisão da escolha da personagem mantinha-se. Num processo mental escusado, personagens diferentes passaram por ritos de iniciação, até que as dúvidas se dissiparam, quando há anos conheci o Duque de Bragança. O homem alto, simpático quanto baste, com um bigode que quase ninguém usa, mas que indiscutivelmente o favorece, era exactamente o tipo de personagem que procurava.

Controversa, corajosa, e um espécime em vias de extinção, dado que apenas nele e nos seus irmãos se uniram decénios de disputas dinásticas entre liberais e miguelistas, graças ao casamento de S.A.R. o Senhor Dom Duarte Nuno com S.A.I.R. a Senhora Dona Maria Francisca.

O compromisso da escrita não surgiu pelo facto de a personagem ser o Herdeiro da Coroa de Portugal. Surgiu essencialmente porque à medida que o ia conhecendo nascia em mim uma curiosidade enorme pela sua personalidade pouco usual e uma admiração pelas suas ideias que transformavam a situação num desejo que devia ser cumprido.
Para o leitor distraído que nunca o tenha visto, o Senhor Dom Duarte é um homem alto, bem constituído, com cabelo castanho arruivado e olhos esverdeados onde se lê tudo o que lhe vai na alma. Digamos que os olhos são o ponto fraco do Duque de Bragança. Quando fazem lembrar o sossego dos lagos irlandeses, podemos assegurar que está feliz. Quando tiverem lâmpadas acesas que recordam relâmpagos e trovoadas, alguma coisa o atormenta. Não há dúvida que o teste da sua disposição são os olhos. A sua tão apregoada simplicidade franciscana não é tão simples como aparenta. Ainda que pareça um paradoxo, é uma simplicidade complicada. Tem um trato afável seja com quem for, mas existem por vezes uns timbres de arrogância na voz, que têm qualquer coisa que ver com a coluna vertebral que mantém sempre muito direita e o faz parecer ainda mais alto. Sendo inteligente é forçosamente ecologista,
preocupa-se profundamente com o futuro do seu país e não é minimamente consumista. Tem um sentido de humor que me atreveria a chamar de britânico. Sabe que é uma referência para muita gente (monárquicos ou não) e representa sem dúvida uma reserva moral da Nação, uma bandeira que luta por uma nova ordem internacional.
O Senhor Dom Duarte Pio João é sem dúvida uma pessoa muito comentada (tantas vezes erradamente!) e fotografada como figura pública que é. Contudo, por isso mesmo, é ora elogiado ora agredido impunemente, confundindo mais ainda o público que o envolve em lendas sebastiânicas (e outras não tanto), deixando a verdade repousar num coma profundo, quase permanente.
Confidenciei-lhe a minha pretensão e enviei-lhe o plano do livro que gostava de realizar. Quando nos encontrámos, olhou-me pensativo, concentrando em mim o cinza--verde indefinido dos olhos, e disse: "Podemos experimentar."
E foi assim que combinámos a primeira entrevista em Sintra , ao meio-dia de um dezanove de Julho. Quem conhece o Senhor Dom Duarte sabe que uma das suas características é precisamente a abstracção casual do momento presente, quando surgem coisas mais importantes. Consegue ganhar-me nesse campo, o que é francamente difícil.
Por experiência própria posso garantir que é tudo uma questão de economia mental. Quando cheguei a Sintra (amavelmente conduzida por um grande amigo, o economista Rodrigo de Moctezuma), alguém me fez subir uma série de escadas e me deixou num salão que me entusiasmou pelos

magníficos óleos das paredes. Passado algum tempo surgiu Dom Duarte com a terrível dúvida: "Tinha combinado hoje consigo em Sintra?" Depois da dúvida esclarecida, voltámos a Lisboa no seu jeep verde-caça, deixando no Chiado o Senhor Dom Miguel, que partia nesse dia para Santar. Abro um parêntesis para dizer que o Infante, para além de um pintor francamente bom em qualquer parte do mundo, é uma pessoa superdivertida, o que tornou a nossa viagem para Lisboa numa constante gargalhada. Enquanto Dom Miguel seguia para Santar, Dom Duarte e eu escolhemos um lugar sossegado para iniciarmos a nossa primeira conversa, que iria dar origem ao primeiro capítulo do meu livro.»

 

Livro de 1995, ainda possivel de ser adquirido:

http://www.wook.pt/authors/detail/id/11219

 

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